
Vivemos espiritualmente como uma parábola da história da humanidade a trajetória da Quaresma rumo à Páscoa. Hoje, sacramentalmente ressuscitados em Cristo, somos chamados a ser sinal deste Dom de Deus, a Páscoa, como resposta humana no mundo, a uma sociedade fragmentada e submetida ainda a si mesmo, dilacerada em discórdias, e movida pelo culto narcisista, que ao contemplar a si mesma, fechada em sua finitude, perdeu a dimensão da transcendência, da eternidade. A Páscoa será realidade no mundo, quando o homem e a mulher se reconhecerem e reencontrarem sua identidade na face Deus, que revela em Cristo Morto e Ressuscitado aquilo que o homem é chamado a ser e viver, o que podemos e devemos ser. Reconhecendo-nos no Mistério de Deus abandonamos o culto ilusório e arrogante de nós mesmos para abrir-nos à nossa própria destinação, que ultrapassa os limites do tempo e da história, superando a nós mesmos, e reencontrando o nosso lugar no Mistério da Vida.
Como cristãos oferecemos a Cruz, negação do nosso egoísmo e oferta de nós mesmos, como caminho de Ressurreição em vista de um Mundo melhor. Deus nos oferece o dom da Cruz e Ressurreição de seu Filho, para que nEle submetamos o mal neste mundo como resposta de superação de nós mesmos e condição de participação em sua Vida Divina. Os ressuscitados em Cristo, somos chamados a responder com o “modus vivendi” próprio inaugurado por Jesus. Uma nova maneira de experimentar e relacionar-se com o mistério da vida, marcada não pelo egoísmo, mas por uma presença ativa na sociedade, como agentes dinâmicos da transformação do mundo; enfrentando com coragem o mal da miséria que fere a dignidade humana, do abandono de idosos nos hospitais, da pedofilia e abusos sexuais diversos que torna a sexualidade um meio de promiscuidade degenerando a consciência de indefesos e violando a integridade da vida; a corrupção que assola as estruturas sociais fragmentando-as e viciando-as, a intolerância política que fomenta a guerra extrapolando-se em genocídio; o fundamentalismo religioso que desvia a religião de sua natureza e finalidade próprias alienando o homem... A Cruz , como esforço pessoal e sinal de adesão a Causa de Cristo é condição “sine qua non” para a Ressurreição. Não há ressurreição sem cruz. Cruz e Ressurreição são dimensões de um Único e Mesmo Mistério, que chamamos Páscoa.
A esperança cristã da Ressurreição não está fundamentada num evento, numa experiência casual e aleatória; mas, num Acontecimento manifestado no signo da Cruz. Morte e Ressurreição de Cristo, são a certeza de que não estamos sozinhos, de que Deus não nos abandonou a nós mesmos; De que Ele está conosco e sabemos para onde caminhamos. Nossa esperança não nos engana por que fundamentada no Acontecimento da Páscoa de Cristo, nAquele que não nos engana. Longe de romantismo ou sensacionalismo estéril, a Páscoa nos faz acreditar não apenas em Deus, mas por isto, acreditar em nós mesmos, na humanidade, que um mundo melhor é possível e nós podemos realizá-lo. Deus não desistiu de nós, também nós não devemos desistir de nossa vocação à transcendência, do sonho de uma sociedade justa e solidária, onde o pranto dá lugar ao gozo, a rivalidade à fraternidade, o preconceito ao respeito à diversidade e acolhida sincera da alteridade, o egoísmo à solidariedade, a indignidade da miséria ao banquete da vida em abundância, a Treva à luz. Nada mais humanista ou humanizador que a experiência da Páscoa. Um caminho de libertação, verdadeiro progresso humano e social, como um contínuo mergulho e aprofundamento na Vida Divina, em vista de sermos nós mesmos em Deus, Divinizados nEle.
Que a Luz da ressurreição do Senhor nos alcance nestes tempos sombrios e desafiadores, para que iluminados e ressuscitados nEle, seja renovada nossa esperança e nosso compromisso com o Mistério de Deus, com a humanidade, com nós mesmos, superando toda angústia e tristeza, para que um novo tempo se realize e a Vida se estabeleça, seja uma evidência irrevogável, inalienável, sendo Deus Tudo em todos e em todas as coisas.
Uma Feliz e abençoada Páscoa. “Nos combates honrados das lutas sofridas em tempos sombrios, renovadas esperanças para todos”. E que assim seja.